quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Entrevista com o médico Nilson Batista


Nilson batista pereira neto , trabalha com dependência química no exercito e fora do exercito já trabalhou na clínica Ricardo e BVG que pertencem ao governo do estado em Valencia, projeto de clínicas populares ( Valencia, Santa Cruz, Barra Mansa) RJ.


GSV:_ Relate um pouco de sua experiência em relação a esse problema no ambiente de trabalho.

Nilson:_ Em relação ao ambiente de trabalho o problema principal é o alcoolismo , muitas vezes o funcionário no meio militar ele já chega embriagado na segunda-feira como em qualquer instituição então é um problema já da sociedade, existe uma precocidade o uso da bebida alcoólica começa em torno de 3 anos de idade induzido pela família são hábitos familiares de dar vinho para a criança dormir, hábitos de molhar a chupeta na cerveja e achar engraçado a criança sair tonta e depois vai pagar mais caro por isso.

GSV:_ Qual sua opinião sobre o suicídio lento ?

Nilson:_ Nós toleramos muito a questão do suicídio lento a pessoa sabe que aquilo esta fazendo mal mas vai entrando por aquele caminho , como cigarro, álcool , e em relação as drogas ilícitas também é comum encontrarmos nos arcos da Lapa crianças de 7 anos , 8 anos cheirando cola.

GSV:_ Existe um certo costume por parte da sociedade de associar o consumo de drogas por familiares a uma possível crise familiar, o que o senhor pensa disso?

Nilson:_ Existe um certo tabu de que a família esta em crise, a família não esta em crise o que esta em crise mesmo é a sociedade tem que botar na cabeça que combater droga não da dinheiro, droga da dinheiro, então é uma questão financeira mesmo . Muita gente ganha com as drogas, muita gente ganha com o álcool, muita gente ganha com o cigarro e em contra partida muitos vão perder, tudo tem um lado bom e um lado ruim quem vai perder é quem usa.

GSV:_ Como o senhor encara as campanhas de combate as drogas ?

Nilson:_ Vou te passar uma experiência que aconteceu no ano passado, chegou um laboratório americano querendo fazer uma campanha junto ao governo brasileiro para que fosse estimulado o uso de medicamentos para inibir o uso de cigarros, pois esse medicamento daria um sucesso de 5% , só que nós temos um resultado muito maior aqui no Brasil que é o patrulhamento que é esse que agente faz com os colegas de trabalho como ‘’ para de fumar, não faça isso’’ isso que as famílias fazem, que agente tem feito dentro da sociedade isso da uma resposta muito melhor que o uso da medicação. Então esse caminho que esta sendo trilhado pelas famílias, pelas empresas, pela sociedade, esse é o caminho perfeito. Nós tivemos uma redução de fumantes no Brasil de 1/3 , graças a isso não graças a medicamento mas ao patrulhamento.

GSV:_ Sobre a Área de Fumante no ambiente de trabalho, qual sua opinião sobre esse assunto?

Nilson:_ Se você suspender pode provocar uma crise de abstinência eu acho que o fumódromo tem uma coisa vantajosa, porque vai fazendo a pessoa paulatinamente deixar de fumar, ela vai sendo , de certa forma discriminada tendo cada vez menos condições menos acessos é melhor do que parar de forma abrupta. Porque a abstinência pode gerar inclusive surtos psicóticos crises muito grandes , isso pode ser uma coisa pior no ambiente de trabalho. É melhor que seja assim mesmo, vai botando a pessoa pra fumar fora do prédio, vai criando dificuldades vai criando barreiras.

GSV:_ Qual sua opinião sobre os afastamentos por motivos do uso de drogas ? E a qualidade de vida atual ?


Nilson:_ Se você pensar na quantidade de afastamento do trabalho por motivos de alcoolismo, cirrose hepatite alcoólica, se você pensar que essa pessoa vai ter expectativa de vida menor e afastamento de trabalho por esse motivo. Você vai aumentar a produtividade e a saúde no trabalho também, se você pensar em relação ao cigarro na questão do enfisema pulmonar dos cânceres isso também vai da uma qualidade de vida melhor a pessoa. Hoje em dia as pessoas estão vivendo mais e com melhor qualidade de vida isso reflete também na produtividade das empresas você vai ter uma família mais saudável. Antigamente tinha pessoas morrendo por causa de cigarro com 35 anos por causa de cigarro, hoje chegam a cerca de 70 anos com uma qualidade de vida bem melhor. Mas pode melhorar.

Também questão de saúde publica com o leito ocupado por uma pessoa com enfisema ela vai ficar ali até morrer. Você poderia usar esse leito para o atendimento de uma infecção, dengue, de um quadro mais agudo. É um leito que é disponibilizado para a sociedade sem contar que a internação prolongada ela é muito cara.


GSV:_ Qual sua idéia sobre a dependência ?


Nilson:_ Existe uma idéia falsa de que o alcoólatra é aquele que cai bêbado pela rua, na verdade a dependência é você conseguir ficar sem , ou não. Se você necessita de uma lata de cerveja no almoço de domingo e não consegue ficar sem aquela única lata de cerveja no almoço de domingo e vai sair desesperado procurando algum lugar que venda, você então é um viciado. Não é a quantidade mais sem se você consegue ficar sem , ou não. Algumas vezes você vai ter um inicio da dependência sem uma conseqüência social, mas também tem os quadros mais extremos onde toda a instituição da família, do ambiente de trabalho, da produtividade vão ser afetados. Vai ter aquela pessoa improdutiva, que ao chegar em casa briga com a família, termina o relacionamento, perde o emprego e acha que não tem mais como se recuperar, mais tem a possibilidade.


GSV:_ Então basicamente existe aquele que consome a droga e pode conviver longe dela e os que já são viciados e sofrem suas conseqüências ?


Nilson:_ O que se tem é a questão se você pode ficar sem aquilo ou só convive com aquilo. A maconha é uma droga que provoca uma dependência química, o álcool é uma droga que provoca uma dependência química. Existem essas variáveis, o seu corpo vai pagar por essa dependência, é possível beber uma cerveja sem ser alcoólatra



GSV:_ Qual sua postura sobre as drogas menos conhecidas mas de efeito muitas das vezes maior do que as ilícitas ?


Nilson:_ Existem drogas que são aceitas até pela sociedade drogas utilizadas em rituais religiosos , a Ayahuasca,o Santo Daime, a Barquinha , e outra União do vegetal. Essas drogas são inclusive aceitas pelo supremo, mas provocam dependência. Ninguém se torna dependente porque quer, ninguém entra nesse caminho pra ficar dependente mais sim por curiosidade. Se você encontra drogas na mochila de teu filho e você quer dialogar e ele não quer é necessária a internação ou você vai perder teu filho para o tráfico?


GSV:_ A mídia propaga contra informação ?


Nilson:_ Exatamente, eu vou passar pra você que a maconha faz mal e ai a revista tem uma folha de maconha na capa mais diz que cigarro mata mais que a maconha então o cigarro é mais perigoso que a maconha isso é contra informação, se você pensar de uma forma diferente nos países da Oceania cerca de 2 mil turistas morrem vitimas de coco que cai na cabeça, ele ta embaixo do coqueiro e cai um coco na cabeça dele. Em contra-partida ninguém morre por explosão de bomba atômica, isso significa que o coco é mais perigosa que a bomba? É porque não estão soltando bombas atômicas por ai. Se você liberar o uso da drogas se aceitar esse uso com facilidade , naturalmente vai ter mais casos de depressão , mais casos de acidentes de trabalho, mais famílias destruídas, uma destruição da vida social dessa pessoa.


GSV:_ Qual foi a experiência mais marcante na sua vida profissional quanto a esse assunto?


Nilson:_ O que mais me chocou foi quando eu trabalhava no hospital geral de Jacarepaguá , e tinha um senhor sentado na cama com um problema de enfisema ele tinha cerca de 60 anos ele tentava respirar não conseguia não adiantava agente botar oxigênio porque na verdade o problema dele não era esse, era falta de pulmão que tinha sido destruído por causa do cigarro e ele comentava que achava melhor ter bebido do que ter fumado porque não estaria nessa situação e ai mostrei a ele um senhor que estava deitado no leito ao lado em coma com cirrose alcoólica e disse “Esse ai bebeu” e comentei que era melhor não ter bebido nem fumado, ele concordou. No plantão seguinte os dois já haviam falecido.


GSV:_ O que diria a uma pessoa que pensa em experimentar algum tipo de droga?


Nilson:_ Primeira coisa é saber o porque da pessoa precisar daquilo o que esta levando a ela a procurar aquilo. Se for por problemas, eles existem pra ser resolvidos não parar ser agravados, as drogas não resolvem problemas.


GSV:_ O que você diria sobre a pessoa que bebe e diz que bebe mesmo, que fuma e fuma mesmo.


Nilson:_ O mais difícil é a contra informação , ele vai ter muitos argumentos contra você mais ai tem de mostrar a realidade que ele não quer enxergar. Porque isso vai prejudicar ele, vai prejudicar a guarda de um filho, causar um acidente de transito, o que é ruim vai se tornar pior.


GSV:_ Qual a sua opinião sobre as pessoas que afirmam que usa algum tipo de droga, (maconha, por exemplo) e relata que não há nenhum problema nesse hábito?



Nilson:_ Você tem que saber o que ela esta querendo , se quer retirar a culpa dela ou quer divulgar as drogas. Tem um deputado do partido verde que ele faz uma apologia muito grande ao uso da maconha só que a maconha tem uma substancia muito forte.


GSV:_ Para encerrar, poderia fazer alguma conscientização final?


Nilson:_ Eu acho que vocês deveriam continuar orientando os amigos, colegas de trabalho, dentre outros. Esse patrulhamento é muito importante não adianta esperar soluções miraculosas de fora. Porque a sociedade esta sendo agredida constantemente é um erro dizer que a familia esta em crise, não esta, hoje em dia tem um dialogo maior basta aproveitar.


GSV:_ O Grupo Saber Viver agradece a oportunidade.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Como os funcionários se livram das drogas



"Aqui não temos problema com drogas. Não precisamos de nenhum projeto de prevenção e tratamento." Essa é a frase ouvida com bastante frequência pelos profissionais envolvidos na implementação de programas de prevenção e combate ao uso de drogas em empresas.
Se o assunto é tabu em qualquer lugar, no ambiente de trabalho então ele adquire proporções quase demoníacas. "O consumo de drogas é presente, vem aumentando na sociedade como um todo, e as empresas não estão fora disso", diz o psiquiatra Arthur Guerra, presidente do Conselho do Grupo de Estudos de Álcool e Droga da Faculdade de Medicina da USP.
Mas essa realidade é difícil de ser identificada porque, no trabalho, os efeitos das drogas, que envolvem queda na produtividade, absenteísmo e falta de motivação, muitas vezes passam despercebidos. "Aparentemente, aos olhos dos colegas e dos superiores, os usuários estão com a situação sob controle", diz Guerra.
A primeira e única pesquisa sobre drogas feita no Brasil, de 2001, em que o Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas), da Unifesp, entrevistou 8.589 pessoas de 107 cidades do país, registrou a dependência de álcool em 11,2% dos entrevistados. Essa também é a droga que mais problemas causa dentro das empresas, seguida pelo tabaco, pela maconha e pela cocaína, diz Guerra.
"O grande problema é a empresa não aceitar que o consumo de drogas existe em qualquer setor social e que o ambiente de trabalho não está imune", reclama a assistente social e especialista no assunto Leda Ribeiro, que coordena o programa cujo know-how está sendo exportado pelo Brasil para Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai. Trata-se do Programa de Prevenção ao Uso de Drogas no Trabalho e na Família do Sesi-RS, desenvolvido em parceria com o Escritório das Nações Unidas Contra Drogas e Crime (Unodc). A idéia original veio da Noruega, em 96, e foi adaptada à realidade brasileira. Seu maior mérito, segundo Giovanni Quaglia, do Unodc, é que o funcionário se transforma no principal agente modificador da relação da empresa com as drogas.
Antes mesmo do médico, do assistente social e do psicólogo, é ele quem vai, uma vez orientado por essa equipe multidisciplinar, identificar e "educar" quem está envolvido com drogas.
O programa prevê ainda apoio psicológico dentro ou fora da empresa, o qual pode ser estendido para a família, garantia de que não haverá demissão do funcionário e, além disso, ninguém é forçado a aderir ao programa.
A dependência -independentemente da droga- não elege cargo ou função. "De diretores a auxiliares, todos podem ter problemas", diz o psiquiatra Ronaldo Laranjeiras, coordenador da Unidade de Álcool e Drogas do Proad (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes), da Unifesp. Mas quem exerce cargos gerenciais, portanto desempenha papel de líder, tende a se esconder mais, a ficar distante dos programas oferecidos.
"Há o medo de que a equipe comece a desrespeitá-lo", diz Edméia de Oliveira, psicóloga da Infraero, uma das empresas que enfrentou casos de dependência química entre gerentes.
Na Avon, o gerente de produção Nilson Wendland atua como um dos agentes modificadores. Passou por um treinamento para identificar precocemente casos de dependência química. Assim, ele observa, entre outros fatores, o rendimento dos funcionários, o índice de faltas, seu comportamento e suas reações emocionais, por exemplo. "Se notamos algum problema, perguntamos, de forma sutil, como está o dia-a-dia dele no trabalho, se há algo que possamos fazer", diz Wendland.
Isso reflete uma mudança significativa de abordagem. Há dez anos, o assistencialismo e o tom acusatório imperavam. Hoje, falar de drogas em empresas é mais fácil, no caso das que incluem o assunto nos seus programas de qualidade de vida, explica o psiquiatra João Carlos Dias, coordenador do Departamento de Dependência Química da Associação Brasileira de Psiquiatria.
"Dentro desse conceito moderno, o funcionário assume a responsabilidade sobre si. E os temas álcool, tabaco e drogas ilícitas entram no rol dos problemas de saúde, dividindo espaço com programas de combate ao estresse e de prevenção ao câncer de mama, por exemplo", diz o médico.
Para Arthur Guerra, é evidente o progresso das empresas. "Não podemos negar que há a dificuldade em aceitar o problema. Mas hoje temos exemplos que provam que a interferência da empresa é indispensável; e não se trata de benemerência, mas de pensar na relação custo-benefício: sai mais barato orientar e tratar o funcionário do que demiti-lo."

(Folha de S. Paulo - 13/03/03)


by TemplatesForYouTFY
SoSuechtig, Burajiru